O Sítio organiza workshops de Revestimentos de Cal Aérea com o Eng. Fernando Cartaxo e a Fradical.
Proximo workshop – Datas a definir
Cal Aérea
A história deste material remonta ao amanhecer da história do próprio homem. Foi ainda na pré-história que o homem começou a produzir a cal, havendo vestígios da sua utilização com mais de 10 000 anos. Este material ancestral faz parte do grupo das primeiras transformações químicas que fomos capazes de dominar. Desde então está presente em inúmeras culturas espalhadas pelo mundo e em Portugal encontra-se disseminada por quase todo território. Foi durante milénios utilizada enquanto desinfectante, ligante e como tratamento de solos para a agricultura. E hoje, se excluirmos o petróleo e os seus derivados, este é o produto químico mais produzido no mundo – 300 milhões de toneladas anuais.
Nas economias menos desenvolvidas uma grande percentagem deste material é ainda aplicada na construção, principalmente enquanto argamassa de assentamento de alvenaria e enquanto revestimento. Em economias extremamente industrializadas, como a nossa, a percentagem da cal aplicada na construção é extremamente baixa. O cimento ocupa agora esse espaço.
Este novo material tem vários problemas, alguns ecológicos – p.e. necessita de grandes quantidades de energia para ser produzido e não é reciclável – alguns económicos e sociais – necessita de uma grande centralização de recursos e capital para ser produzido – e outros problemas construtivos – pouco duradouro (a sua cura química nunca termina logo deteriora-se com a passagem do tempo), liberta ao longo do tempo salitres prejudiciais para as construções, tem uma forte acção capilar e pela sua rigidez tem tendência a fissurar.
Foi a aplicação do cimento em revestimentos, por exemplo, que levou à necessidade da introdução de soluções como as tintas plásticas que tem por sua vez também graves consequências para o ambiente e para a saúde e conforto dos edifícios.
Mas a cal pode ser resgatada. Utilizando receitas tradicionais e desenvolvendo novas investigações é agora possível obter resultados que superam largamente o desempenho do cimento e ainda com um grande conforto ambiental e uma qualidade estética que evitam a utilização de qualquer outro tipo de acabamento.
Enquanto solução construtiva este material destaca-se de várias formas:
A cal aérea é um material apropriável – Mesmo resultando da queima de calcário (CaCO3) a uma temperatura de 825 a 900 ºC a produção de cal pode ser feita à escala local com tecnologia simples. A sua aplicação, embora implique algum conhecimento específico, é uma actividade fácil de aprender.
A cal aérea é um material muito versátil – A cal pode ser empregada com muitos objectivos. Na construção pode ser usada como argamassa de assentamento, revestimento comum, revestimento impermeável, tintas, colas, estabilizante de argamassas e de tijolos de terra, entre muitas outras aplicações. A cal permite que se adicionem outros materiais incorporando novas características físicas e química (p.e. adicionando pozolanas pode obter-se um betão resistente como o utilizado pelos romanos na construção do Panteão, ou adicionando um subproduto do azeite pode obter-se uma argamassa totalmente hidrófuga mas que mantém uma elevada permeabilização ao vapor de água. Este material é também compatível com um grande número de soluções construtivas incluindo a construção com terra crua.
A cal aérea é um material ecológico – Mesmo com a queima a energia embutida da cal é relativamente baixa. A mesma quantidade de Dióxido de Carbono (CO2) libertado durante este processo de queima (excluindo o proveniente do combustível) é reabsorvida no processo de cura. Para além disto a cal é um material totalmente reciclável e capaz de incorporar na formação de compostos materiais que são subprodutos de outras actividades industriais e artesanais que constituem resíduos de difícil eliminação. A cal pode ainda ser produzida a partir de matérias-primas renováveis com por exemplo cascas de alguns moluscos.
A cal aérea não é tóxica – Quando aplicada como revestimento, por não ser uma barreira de vapor, a cal proporciona um ambiente de qualidade equilibrando a humidade no ar e prevenindo doenças respiratórias. É um material totalmente natural e compatível com a saúde humana.
A cal aérea é um material resistente e durável – No processo de cura, já acima referido, a absorção de Dióxido de Carbono (CO2) faz com que a cal se transforme lentamente no material de origem, o calcário, criando um material monolítico extremamente resistente e com uma grande qualidade estática. Para além disto, confere às argamassas um baixo módulo de elasticidade adquirindo uma grande resistência à fissuração.
Estas características tornam a Cal Aérea num material com grande interesse estratégico na procura de soluções que promovam a capacidade de indivíduos e comunidades de gerirem o seu próprio espaço construído em harmonia com o ecossistema que habitamos.
O domínio deste material abre assim uma grande gama de possibilidades podendo ser aplicado na criação de emprego e relações económicas de nível local trabalhando de forma sustentável, resiliente e criativa.
O Formador
Fernando Cartaxo é Engenheiro Civil formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico. Para além de uma vasta experiência na gestão de projectos e obras tem, desde 2001, aprofundado estudos sobre a cal aérea. Está desde então ligado à investigação nas áreas da composição e fabricação de cal aérea em pasta, dos aditivos pozolâmicos e das argamassas pré doseadas de cal em pasta com aditivos pozolâmicos. Foi co-autor da comunicação “Characterisation of hydrofuged lime mortars for use on ancient buildings walls” apresentado no final de 2006 no 7th International Masonry Conference.
Em 1996 fundou a empresa FRADICAL, Fábrica de Transformação de Cal, Lda. que se dedica à produção e comercialização de vários produtos de cal.
Foi também co-autor do desenvolvimento da solução ECO-ETICS Suberlyme, com patente europeia.
O workshop
Este workshop tem como objectivo a transmissão dos conhecimentos acerca da cal aérea e todas as suas possibilidades. Especial importância será dada às suas espantosas possibilidades enquanto solução de revestimento. Esta exploração inclui soluções de um revestimento totalmente hidrófugo. Haverá um constante equilíbrio entre as componentes teórica e prática. Em conjunto, estes dois tipos de aprendizagem permitirão que os alunos acabem o workshop com a capacidade de entender e aplicar este material.
O workshop terá três grandes momentos:
1- Transmissão teórica de conhecimentos relativos à Cal e à Pozolana.
2- Experimentação de várias soluções de revestimento (amostras)
3- Aplicação dos conhecimentos no trabalho de revestimento de um edifício de adobe construído num workshop anterior. Para saber mais sobre este edifício clique aqui.
Este workshop será orientado para todos aqueles (com ou sem formação na área da construção) que tenham curiosidade em compreender melhor este material.
